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Pós-eleições na Dinamarca. Primeira-ministra Mette Frederiksen apresenta demissão ao rei

Pós-eleições na Dinamarca. Primeira-ministra Mette Frederiksen apresenta demissão ao rei

A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, apresentou esta quarta-feira a sua demissão do rei, um dia depois de eleições parlamentares que valeram um declínio significativo para a sua formação política, o Partido Social-Democrata (SPD), anunciou o palácio real em comunicado.

Cristina Sambado - RTP /
Martin Sylvest - Reuters

O rei irá reunir-se com os partidos antes das negociações para a formação de um futuro governo de coligação, que se prevê serem complexas. O Partido Moderado (PM), de centro, deverá desempenhar um papel fundamental nestas discussões.

Os líderes partidários vão realizar esta quarta-feira um debate tradicional, seguido de reuniões individuais com o rei, que não tem poderes formais, para sugerir um candidato para uma primeira tentativa de formar governo.
A Dinamarca enfrenta agora semanas de negociações para a formação de uma coligação, após as quais parece provável uma coligação de centro-esquerda.

O Partido Social-Democrata de Frederiksen teve na terça-feira as suas piores eleições desde 1903, conquistando apenas 38 lugares no parlamento de 179 lugares – uma queda em relação aos 50 de há quatro anos – no meio das preocupações dos eleitores com a imigração, a crise do custo de vida e o sistema de bem-estar social.

Estas questões de política interna ofuscaram o apoio à postura desafiadora de Frederiksen em relação às repetidas ambições do presidente norte-americano, Donald Trump, de anexar a Gronelândia, território semiautónomo da Dinamarca, avançaram à Reuters vários analistas.

As perspetivas de Frederiksen para um terceiro mandato como primeira-ministra não eram excelentes após as desastrosas eleições autárquicas de novembro, quando o seu partido sofreu um rude golpe a nível nacional e perdeu o controlo de Copenhaga pela primeira vez em mais de 100 anos.

A primeira-ministra, de 48 anos, convocou eleições antecipadas no mês passado, na esperança de beneficiar de um “efeito Gronelândia” nas sondagens, em resposta à sua firme atuação face às ameaças de Donald Trump, em janeiro, de invadir o território, em grande parte autónomo, que faz parte do reino da Dinamarca.
Nenhum dos blocos tem maioria
Os Social-Democratas continuam a ser o maior partido da Dinamarca, com 21,9% de apoio, o que significa que Frederiksen é amplamente vista como tendo boas hipóteses de regressar para um terceiro mandato como primeira-ministra, embora após negociações de coligação difíceis e prolongadas.

O bloco de esquerda de Frederiksen conquistou 84 lugares no parlamento, contra 77 dos partidos de direita, e ambos os lados ficaram aquém dos 90 lugares necessários para a maioria.
Isto deixa ambos os lados dependentes dos 14 lugares conquistados pelo Partido Moderado, do Ministro dos Negócios Estrangeiros Lars Lökke-Rasmussen, um grupo centrista que poderá tornar-se decisivo nas negociações de coligação.

Desde 2022, Frederiksen lidera uma grande coligação entre os Social-Democratas, o Partido Liberal (centro-direita) e os Moderados. O líder do Partido Liberal, o ministro da Defesa Troels Lund Poulsen, afirmou que já não tem interesse em governar em coligação com Frederiksen.
Mette Frederiksen quer manter-se no cargo
A social-democrata Mette Frederiksen afirmou estar "pronta para reassumir" o cargo de primeira-ministra da Dinamarca, apesar da queda significativa do seu partido, nas quais o bloco de esquerda obteve a maioria dos votos, mas não a maioria absoluta.

"Estávamos à espera de perder terreno, o que é normal numa terceira eleição", reconheceu Frederiksen, que lidera o governo desde 2019. "É claro que lamento não termos obtido mais votos."


Mette Frederiksen frisa que continua pronta “para assumir as responsabilidades de primeiro-ministro da Dinamarca nos próximos quatro anos”.

"Não há qualquer indicação de que a formação de um governo será fácil", reconheceu Mette Frederiksen

No entanto, para reassumir a chefia do governo, Mette Frederiksen necessita de se envolver em negociações complexas para a formação de uma coligação com outros partidos, incluindo os Moderados do antigo primeiro-ministro e atual ministro dos Negócios Estrangeiros, Lars Løkke Rasmussen, que detém a chave para qualquer futura maioria.

Os Moderados (ao centro) conquistaram 14 lugares e, por isso, desempenharão um papel decisivo nas negociações para a formação do próximo governo, que se prevê serem difíceis.

“Juntem-se a nós. Estamos no centro. Vocês correram para os extremos.” 

“Ainda estamos aqui”, disse Løkke Rasmussen aos seus antigos parceiros.

Nas próximas semanas, o papel de Rasmussen deverá ser crucial. Na véspera das eleições, o líder dos Moderados declarou que não desejava ser primeiro-ministro, cargo que já ocupou duas vezes, mas que gostaria do cargo de "investigador real", que implica auxiliar na formação do governo e geralmente é ocupado pela pessoa que posteriormente se torna primeiro-ministro.

Veterano da cena política, Rasmussen cultiva, no entanto, uma imagem de homem do povo, tendo declarado recentemente à revista Euroman que por vezes usa sabão líquido em vez de pasta de dentes e gosta de fumar cachimbo na cama "se estiver com dores de garganta ou doente".

A líder dos Liberais, que também fazia parte da anterior coligação governamental, afastou uma nova colaboração com a esquerda.

“Existem agora duas opções óbvias para o Partido Liberal: ou conseguimos um governo de centro-direita, ou vamos para a oposição”, disse Troels Lund Poulsen aos seus apoiantes.

À esquerda, o Partido Popular Socialista (SF) tornou-se o segundo maior partido do país pela primeira vez na sua história, com 11,6% dos votos.

“Devemos tentar garantir o estado de bem-estar social, devemos tentar iniciar uma transição ecológica”, disse a sua líder, Pia Olsen Dyhr, à imprensa. “Se não tivermos sucesso, não entraremos no governo; permaneceremos na oposição”.Ascensão da extrema-direita
O Partido Popular Dinamarquês, um partido de extrema-direita, viu o seu movimento anti-imigração, que durante muito tempo teve uma grande influência na política dinamarquesa antes do seu declínio em 2022, triplicar a sua votação, atingindo cerca de 9,1% dos votos.O movimento anti-imigração, que durante muito tempo teve um grande peso na política dinamarquesa antes do seu declínio em 2022, triplicou a sua votação, atingindo cerca de 9,1%.

"Triplicar o número de votos é uma demonstração notável do apoio do povo dinamarquês ao meu partido", disse Morten Messerschmidt, líder do partido, à AFP, saudando o forte desempenho da extrema-direita na Europa.

Segundo Morten Messerschmidt, “agora todos aguardamos para ver o que acontece em França, na Hungria, nos Países Baixos e, claro, no Reino Unido com Nigel Farage. Todos estes são partidos muito bem-sucedidos no nosso setor (extrema-direita), e espero que também tripliquem” a sua votação.

Na Dinamarca, um país próspero com seis milhões de habitantes, a campanha eleitoral centrou-se sobretudo no custo de vida, no Estado de bem-estar social e no ambiente.

O modelo dinamarquês de agricultura intensiva, em particular a criação de suínos, foi central na campanha.

Perante uma forte extrema-direita desde o final da década de 1990, a imigração tornou-se também uma questão crucial, com os sociais-democratas a defenderem um maior rigor nas políticas de imigraçãoMobilização dos gronelandeses
A Gronelândia e as Ilhas Faroé, territórios autónomos do Reino da Dinamarca, têm, cada uma, dois lugares no Parlamento dinamarquês, mandatos que podem influenciar a maioria.

Nas Ilhas Faroé, os eleitores reelegeram os seus dois representantes, um de cada campo político.

E dois novos membros foram eleitos para o Parlamento dinamarquês para representar a Gronelândia, em plena crise em que o presidente dos EUA, Donald Trump, procura anexar o território autónomo dinamarquês. Na capital da Gronelândia, Nuuk, foram registadas longas filas junto às mesas de voto, assim que as urnas abriram.

"Estas são as eleições mais importantes da história para o Parlamento dinamarquês e para a Gronelândia", declarou à AFP o primeiro-ministro groenlandês, Jens-Frederik Nielsen.

Estamos num momento em que uma superpotência está a tentar adquirir-nos, tomar-nos, controlar-nos”, disse Jens-Frederik Nielsen à AFP. “Eles desejam fazer isso, por isso ainda estamos numa situação muito tensa.”

As negociações entre os EUA, Nuuk e Copenhaga ainda estão em curso, mas as tensões abrandaram. A crise, no entanto, parece ter tido um efeito duradouro nos eleitores dinamarqueses.

Embora tenha feito manchetes internacionais, a questão da Gronelândia não dominou as eleições, que foram em grande parte travadas em torno de questões internas, incluindo a promessa dos Social-Democratas de um “imposto sobre a riqueza” para financiar turmas mais pequenas nas escolas primárias, bem como a crise do custo de vida, o endurecimento das já rigorosas leis de imigração da Dinamarca, os direitos dos animais e a água potável.

O imposto sobre a riqueza, uma taxa de 0,5% sobre os ativos detidos por indivíduos com um valor superior a 25 milhões de coroas dinamarquesas (cerca de três milhões trezentos e quarenta e seis mil euros), foi bem recebido por muitos à esquerda, mas desagradou aos magnatas da Dinamarca.

c/ agências 
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